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quinta-feira 27 julho 2017
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Marcas Chinesas De Carros Mudam Foco Após Forte Queda No Brasil

Em 2011, parecia que as marcas chinesas de automóveis cresceriam no Brasil da mesma forma rápida com que o país asiático “invadia” o mercado de eletrônicos ao redor do mundo. Tanto que, Chery e Jac emplacaram, naquele ano, mais de 30 mil veículos, cada. 

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Em 2016, o cenário é bastante diferente. Com a medida que aumenta em 30 pontos percentuais o IPI (Imposto sobre produtos industrializados), a venda das chinesas ainda que estão no Brasil não chega nem perto dos números do auge de suas jornadas no país.

A mais bem sucedida atualmente é a Lifan, que emplacou, até outubro deste ano, 2.832 veículos. Ainda assim, a marca acredita que não conseguirá cumprir a meta de 4 mil unidades até o final de 2016.

Ainda que conseguisse, ficaria abaixo dos 5.006 automóveis que comercializou em 2015.

O momento de  Chery e Jac é ainda mais crítico. Se conseguir cumprir a meta de 2 mil carros vendidos este ano (até outubro foram 1.865), a Chery ainda ficará bem abaixo dos 5.328 veículos que vendeu ano passado.

Já a Jac tem como objetivo emplacar 2,8 mil unidades, mas entre janeiro e outubro vendeu 2.071 carros. Em 2015, foram 5.026 veículos.

Marcas chinesas no Salão do Automóvel (Foto: Flavio Moraes e Alan Morici / G1)

Reflexo no salãoUm reflexo da situação vivida pelas chinesas no Brasil é a participação no Salão do Automóvel. Das 9 marcas que “habitaram” o Anhembi em 2010, apenas duas estiveram no São Paulo Expo em 2016: Chery e Lifan.

A realidade também é contrastante com o discurso de otimismo de dois anos atrás, quando o mercado das chinesas parecia mais maduro.

Entendemos que o Salão não cumpre mais a função de apresentar as novidades do mercado ao público”Sergio Habib, presidente da Jac Motors

Na comparação com 2014, Jac e Geely ficaram de fora. “Entendemos que o Salão do Automóvel não cumpre mais a função de apresentar as novidades do mercado ao público. A imprensa já faz, e muito bem, esse papel. Não havia por que investir tanto”, afirmou Sergio Habib, presidente da empresa.

Situação mais delicada é a da Geely, que não vende mais veículos no Brasil. A marca, dona da Volvo, era representada pelo Grupo Gandini, que também importa e vende carros da sul-coreana Kia no país. A operação foi interrompida em abril e, das 14 concessionárias que a marca tinha no país, restaram 9, que prestam assistência aos clientes.

“Eu não criticaria erros específicos de cada marca. Quando o crédito fica mais seletivo e o nível de confiança é mais baixo, a marca acaba fazendo a diferença. O consumidor acaba correndo para uma marca que ele considera mais consolidada”, comentou Luis Curi, vice-presidente da Chery e diretor financeiro da Abeifa, a associação das importadoras.

O Lifan X80 é apresentado no Salão do Automóvel de São Paulo 2016 (Foto: Flavio Moraes/G1)

Carros mais carosNo auge, em 2010, as chinesas ganhavam consumidores com veículos de entrada, geralmente bem equipados, enquanto as concorrentes ainda faziam clientes pagarem um extra por itens como ar-condicionado e direção hidráulica.

Agora, para sobreviverem no mercado brasileiro, Lifan, Jac e Chery passaram a apostar em veículos de maior valor agregado, sempre no segmento de SUVs, o único que ainda cresce em vendas.

Com exceção da Chery, cujo veículo mais popular desde 2014 é o hatch QQ, atualmente o carro mais barato do Brasil, Jac e Lifan têm SUVs como seus campeões de vendas: T5 e X60, respectivamente.

“O segmento de SUVs é o que mais cresce no mundo e também no Brasil. Assim, ter o foco neste segmento é mais interessante que em outros, sobretudo pela enorme competição que há em segmentos mais expressivos, como sedãs, hatches e compactos”, disse Jair Oliveira, diretor comercial da Lifan.

Carros como o J3 e J3 Turin deixaram de ser tão competitivos no mercado (Foto: Divulgação)

Efeito do ‘superimposto’Outro fator decisivo para a mudança de foco foi o “super IPI”: carros trazidos de países de fora do Mercosul (exceto o México) pagam 30 pontos percentuais extras de IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados), além dos 35% de imposto de importação.

O aumento foi determinada pelo governo federal em 2011, ainda no auge das chinesas, sob a justificativa de proteger a indústria nacional. “As medidas são estímulos para a indústria automobilísta brasileira. Aquela que produz veículos, automóveis e caminhões no Brasil e Argentina”, disse Guido Mantega, ministro da Fazenda na época.

Com isso, as vendas das chinesas despencaram. Chery e Jac já tinham anunciaram fábricas no Brasil, antes do aumento do IPI. Mas só a primeira, concretizou o plano, inaugurando a fábrica em Jacareí (SP) em 2014, quando já estava em vigor o Inovar Auto, conjunto de regras que oferece benefícios fiscais a quem, por exemplo, produz no país.

Jac inaugura pedra fundamental em Camaçari, BA (Foto: Priscila Dal Poggetto / G1)

Fábrica enterradaA Jac também entrou para o Inovar Auto com o plano da fábrica. Chegou a enterrar um carro no terreno em Camaçari (BA), para simbolizar o início da obra. Porém, após a mudança nas regras de importação e sucessivos adiamentos do começo da construção, de fato, perdeu a habilitação no Inovar e se viu forçada a mudar os planos.

Agora, as pretensões são bem mais modestas. A fábrica que faria 100 mil carros anualmente deverá resultar em um galpão que poderá produzir 20 mil unidades/ano no sistema CKD (os carros chegam em caixas e são montados no local).

De acordo com a montadora, as negociações com o governo federal continuam, mas não existe uma decisão sobre o retorno da Jac ao Inovar Auto, o que viabilizaria o início da produção local.

Tiggo 2 é exposto pela Chery no Salão do Automóvel de São Paulo 2016 (Foto: Flavio Moraes/G1)

Próximos passosAtualmente, cada marca pode trazer até 4,8 mil unidades anuais sem o IPI aumentado. “Como estamos limitados à cota, procuramos rentabilizar nossa operação com a farta oferta de modelos mais caros, principalmente porque, a exemplo do Brasil, o mercado chinês adotou os SUVs como preferência nacional”, disse Habib, da Jac.

A fábrica da Chery, que tem capacidade para 150 mil carros ao ano, está parada desde julho, para “adequação da linha”. Isso também contribuiu para o resultado fraco da marca no ano. “Investimos e temos uma fábrica pronta. Estamos reestruturando para fabricar novos produtos”, disse Curi. “Queremos lançar 5 novos produtos em 18 meses.”

Nesta conta, entram o Tiggo 2 e o Arrizo 5, mostrados no salão e o Tiggo 7, outro SUV da família. Os dois primeiros já tiveram a produção em Jacareí confirmada, enquanto o último ainda tem a fabricação local estudada para 2018.

Fábrica da Chery de Jacareí foi inaugurada em agosto de 2014. (Foto: Divulgação / Chery)

Junto com o aumento na linha de produtos, a Chery também planeja chegar ao próximo Salão do Automóvel com a rede de concessionárias e a participação nas vendas reforçadas.

Estamos reestruturando para fabricar novos produtos. Queremos lançar 5 novidades em 18 meses”Luis Curi, vice-presidente da Chery

Dos atuais 37 pontos de venda, o objetivo é alcançar o número “mágico” de 100 lojas, enquanto a participação deve subir de 0,3% para entre 0,8% e 1%.

Ainda restrita a produtos importados, a Jac já confirmou, além do T5 CVT, o crossover compacto T3, que será o menor SUV da linha e concorrerá com Chevrolet Onix Activ, Renault Sandero Stepway e Hyundai HB20 X. Ele deve ser lançado em meados do ano que vem.

Da Lifan, o lançamento no Salão do Automóvel foi o X60 com câmbio CVT e visual atualizado. Ainda existe a possibilidade de mais um SUV chegar por aqui – o “grandalhão” X80, para 7 passageiros.

Lifan X60 reestilizado, apresentado no Salão de São Paulo 2016 (Foto: Flavio Moraes / G1)

Queda na rejeiçãoAlém de sofrer com a crise e a tributação desfavorável, as chinesas também se queixam de um certo preconceito por parte do público brasileiro. Porém, a rejeição, segundo as próprias empresas, tem ficado menor.

Isso aconteceu no passado com outras marcas. A palavra-chave é persistência. Quem ficar, vai colher os frutos”Luis Curi, sobre o preconceito com marcas chinesas

Para o diretor comercial da Lifan, “apesar e ainda existir uma certa rejeição, neste salão pudemos perceber que os veículos de marcas chinesas já são considerados opções aos consumidores”.

Já Luis Curi acredita que a reação do consumidor é normal. “Isso aconteceu no passado com outras marcas. A palavra-chave é persistência. Quem ficar [no Brasil], vai colher os frutos.”